Sente-se à vontade… a história começa
Já pensou na forma como se senta? Direito como um i, encostado numa poltrona macia, em cima de um banco de bar ou de pernas cruzadas num almofadão? Sentar-se é um gesto quotidiano que fazemos sem pensar, mas que, no entanto, diz muito sobre a nossa época, a nossa cultura e os nossos hábitos. Pois a cadeira não é apenas um simples objeto: é o reflexo de um estilo de vida, uma marca deixada no tempo, uma forma de marcar o espaço.
Uma história que se sustenta (em) cinco pés
A história da cadeira é a de uma evolução social e estética fascinante, marcada por mudanças que dizem muito sobre a humanidade e a sua relação com o conforto, a postura e o poder.
- A Antiguidade: um privilégio divino e real NoAntigo Egito, apenas os faraós e os deuses tinham direito a um assento com encosto, finamente esculpido e ornamentado. Os restantes contentavam-se em ajoelhar-se ou sentar-se em bancos rudimentares. Entre os gregos e os romanos, a cadeira tornou-se um símbolo de poder: a cadeira curul romana, por exemplo, estava reservada aos magistrados e chefes militares. Não se tratava simplesmente de um móvel, mas sim de um trono social.
- A Idade Média: sentar-se, um indicador social.Nas grandes salas senhoriais, todos se sentam em bancos ou banquetinhas, exceto o senhor, que se senta num imponente cadeirão de madeira esculpida, por vezes dotado de braços e almofadas para marcar a sua superioridade. Nessa época, possuir uma cadeira individual era um luxo, reservado aos poderosos. Mais do que nunca, a cadeira refletia a ordem hierárquica: quanto mais elevada a posição social, mais alta e trabalhada era a cadeira.
- O Renascimento e o surgimento do conforto: Coma evolução dos conhecimentos técnicos e dos estilos, as cadeiras passaram a apresentar encostos mais elaborados, almofadas e até mesmo braços. O mobiliário torna-se um sinal de requinte, e cada país impõe o seu estilo: a cadeira Luís XIV, símbolo de majestade, coexiste com as elegantes cadeiras bergère do século XVIII. É nesta época que a ideia de conforto individual começa a surgir.
- O Japão e a Ásia: uma outra conceção do sentar-se. Ao contráriodo Ocidente, onde a cadeira é omnipresente, as culturas asiáticas têm, desde há muito, privilegiado uma postura próxima do chão. Os tatamis, os zabutons e as mesas baixas permitem sentar-se direito, o que trabalha os músculos das costas e promove uma postura mais natural. Longe de ser insignificante, esta forma de se sentar está enraizada numa filosofia de equilíbrio e respeito pelo espaço.
- O século XX: o design ao serviço do quotidiano. Coma industrialização e a modernização do mobiliário, a cadeira torna-se acessível a todos e transforma-se num objeto de design. Charles e Ray Eames, Le Corbusier, Marcel Breuer: estes criadores conceberam cadeiras que são simultaneamente estéticas e funcionais, democratizando a beleza nos nossos interiores. O plástico e o metal substituíram gradualmente a madeira maciça, dando origem a cadeiras tão leves quanto elegantes.
Diga-me onde se senta e eu direi quem é
Como é que nos sentamos hoje em dia e o que é que isso revela sobre o nosso modo de vida?
- O trabalho sentado: uma revolução recente. Durante muito tempo, a maioria das profissões era exercida em pé: artesãos, comerciantes, agricultores. O crescimento dos escritórios e do sedentarismo está a transformar as nossas posturas. Hoje em dia, passamos, em média, 9 horas por dia sentados, muitas vezes em posições pouco ergonómicas, o que provoca tensões musculares e fadiga. A cadeira de escritório torna-se, assim, uma questão de saúde pública.
- A arte de sentar-se num café. As esplanadas parisienses são emblemáticas: filas de cadeiras viradas para a rua, não para conversar, mas para observar o mundo. Uma disposição que diz muito sobre a nossa relação com a cidade e com a interação social. Uma simples cadeira de bistrô transforma-se num observatório do quotidiano.
- O coworking e a flexibilidade: Adeusà cadeira de escritório fixa, bem-vindos os espaços modulares. Sentados num sofá, num banco alto ou numa cadeira suspensa, a cadeira torna-se nómada, à imagem dos nossos modos de trabalho. Oscilamos entre uma postura descontraída e uma concentração intensificada, redefinindo constantemente a nossa forma de nos sentarmos.
O assento do futuro: entre movimento e equilíbrio
Perante os desafios colocados pelo sedentarismo, a cadeira continua a evoluir.
- O regresso aos materiais naturais: madeiramaciça, linho, lã… O mobiliário ganha um estilo mais sóbrio, recupera linhas intemporais e privilegia materiais sustentáveis. Está na moda o minimalismo, a simplicidade e o calor das texturas naturais.
- Assentos dinâmicos: bancosbasculantes, cadeiras ergonómicas, bolas de assento: tudo foi concebido para promover o movimento e evitar dores nas costas. A ideia? Nunca ficar totalmente imóvel.
- Reaprender a sentar-se corretamente. Afinal, a questão não é apenas «onde se sentar?», mas «como?». Mudar regularmente de posição, levantar-se com frequência, ajustar a postura… São gestos simples que contribuem para uma melhor qualidade de vida no dia a dia.
Da cadeira real à poltrona contemporânea, do tatami japonês aos bancos públicos, a nossa forma de nos sentarmos reflete os modos de vida e os valores inerentes a toda uma sociedade. Por isso, da próxima vez que se sentar, tenha em mente que uma cadeira nunca é apenas um objeto: é um convite, um território, uma postura perante o mundo. Sentados, mas nunca imóveis.
