Num mundo em que o consumo excessivo e a obsolescência programada ditam os nossos hábitos de compra, vai-se delineando progressivamente uma tendência contrária: a escolha de objetos sustentáveis, concebidos para resistir ao tempo e atravessar gerações. Esta abordagem não se limita a uma simples nostalgia dos objetos de outrora, mas traduz uma verdadeira reflexão sobre a nossa relação com o consumo, a memória e o impacto ambiental. Como chegámos a este ponto? Quais são as alternativas ao consumo efémero? E, acima de tudo, como promover a transmissão dos objetos que estão no cerne dos nossos modos de vida?
Um regresso aos valores da sustentabilidade
Um modelo antigo que volta a surgir
Antes da era da produção industrial em grande escala, a maioria dos bens de consumo era concebida para durar. Móveis de madeira maciça, relógios mecânicos, louça de porcelana… Cada objeto era fabricado com cuidado e podia ser reparado, restaurado e transmitido de geração em geração.
As sociedades tradicionais funcionavam segundo um modelo de transmissão natural: um armário de família passava dos avós para os filhos, as ferramentas eram reutilizadas ao longo de várias décadas e as peças de roupa eram recuperadas, transformadas ou adaptadas para novos usos.
A era do efémero e do descartável
Com o crescimento do capitalismo industrial e da produção em massa, os objetos tornaram-se mais acessíveis, mas também mais efémeros. O surgimento de plásticos baratos, de têxteis sintéticos e de novos modos de consumo centrados na rapidez contribuiu para um desinteresse progressivo pela transmissão de objetos.
Atualmente, de acordo com um estudo da ADEME (Agência para a Transição Ecológica), cada francês produz, em média, 580 kg de resíduos por ano, em grande parte relacionados com bens de consumo corrente que são rapidamente substituídos.
Por que razão se deve incentivar a transmissão de objetos?
Um impacto ecológico significativo
Optar por objetos duradouros e que possam ser transmitidos de geração em geração é, acima de tudo, uma atitude ecológica. Produzir menos, mas melhor, permite reduzir a pegada de carbono associada ao fabrico e ao transporte dos bens.
Alguns números significativos:
- A fabricação de um móvel em madeira maciça gera até 50% menos emissões do que a de um móvel em painéis de aglomerado descartáveis.
- Segundo a Fundação Ellen MacArthur, uma peça de roupa que seja conservada durante mais nove meses reduz o seu impacto ambiental em 20 a 30%.
Uma abordagem económica e patrimonial
Longe de ser um luxo reservado a poucos, a transmissão de bens permite também poupanças substanciais. Em vez de comprar várias vezes o mesmo produto de menor qualidade, investir num bem duradouro torna-se uma solução economicamente mais viável a longo prazo.
Além disso, alguns objetos ganham valor com o tempo:
- Os relógios mecânicos de qualidade são frequentemente revendidos por um preço mais elevado décadas mais tarde.
- Os móveis de madeira maciça bem conservados tornam-se peças de coleção.
- As peças de vestuário e os acessórios de luxo são transmitidos de geração em geração, sobretudo no mundo da moda vintage.
Como promover esta nova abordagem ao consumo?
Escolher objetos concebidos para durar
Um dos primeiros passos consiste em repensar a forma como escolhemos os nossos objetos do quotidiano. Eis alguns critérios a ter em conta:
- Materiais nobres e resistentes (madeira maciça, couro curtido vegetalmente, aço inoxidável, vidro, linho, lã, etc.).
- Fabrico que permita a reparação: dar preferência a objetos desmontáveis, com peças intercambiáveis.
- Selo e certificação que garantem a sustentabilidade (FSC para a madeira, Oeko-Tex para os têxteis, etc.).
Adotar as práticas corretas de manutenção e restauração
Um objeto bem cuidado é um objeto que dura. Algumas boas práticas:
- Unte com óleo e encere os móveis de madeira para evitar que se deteriorem.
- Mandar revisar regularmente os relógios mecânicos e os eletrodomésticos.
- Reparar em vez de deitar fora, recorrendo a artesãos ou aderindo a iniciativas como os «repair cafés».
Incentivar a partilha e a transmissão familiar
Para que um objeto seja transmitido, tem também de ter uma história e um valor afetivo. Algumas ideias para modernizar a transmissão de bens:
- Criar um caderno de transmissão para registar a história e a manutenção de um objeto (por exemplo: quem o comprou, em que ocasião, que memórias estão associadas a ele).
- Oferecer objetos intemporais como presente de família (por exemplo: um relógio, uma peça de joalharia, uma bela peça de mobiliário).
- Criar rituais familiares em torno de determinados objetos (por exemplo: um serviço de porcelana utilizado em ocasiões especiais).
Iniciativas que promovem a transmissão
As marcas que defendem a sustentabilidade
Face à crescente sensibilização dos consumidores, algumas marcas estão a apostar na produção de artigos concebidos para serem transmitidos de geração em geração. Entre elas, destacam-se:
- A Opinel, que fabrica facas de madeira e de aço inoxidável com garantia vitalícia.
- A Le Creuset, cujas panelas de ferro fundido são transmitidas de geração em geração.
- A Vétra, que dá continuidade à arte do vestuário de trabalho resistente e duradouro.
- A Facom e as suas ferramentas com garantia vitalícia mediante a simples apresentação da ferramenta.
O boom do mercado de artigos em segunda mão
As plataformas de revenda e troca estão a ter um sucesso estrondoso, o que demonstra que as mentalidades estão a mudar. Em 2023, mais de 50 % dos franceses compraram pelo menos um artigo em segunda mão (fonte: IFOP). Sites como o Leboncoin, o Vinted ou o Back Market permitem prolongar a vida útil dos artigos e dar-lhes uma segunda oportunidade.
Bibliotecas de objetos e aluguer de longa duração
Surge outro modelo: o da partilha de objetos. Algumas cidades disponibilizam bibliotecas de objetos onde é possível requisitar material de bricolage, de cozinha ou de lazer, em vez de o comprar. Este modelo promove um consumo mais ponderado e colaborativo.
Rumo a um novo estilo de vida
Adotar uma abordagem de consumo orientada para a transmissão é muito mais do que uma simples escolha de compra: é uma filosofia. Baseia-se no respeito pelos recursos, no vínculo intergeracional e na valorização de objetos bem feitos.
Este regresso ao essencial não é uma rejeição do progresso, mas sim uma forma de reinventar a nossa relação com os bens de consumo, devolvendo-lhes um valor afetivo e funcional. Afinal, os objetos que nos acompanham ao longo dos anos são, muitas vezes, aqueles que guardam as nossas histórias mais bonitas.
E se, amanhã, cada compra fosse encarada como um legado?
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